Entenda a influência da cultura organizacional para o êxito de uma empresa

novembro 25, 2020

As pessoas possuem níveis de consciência que lhes permitem alcançar o desenvolvimento pessoal, ou o oposto, que podem desencadear a estagnação. O mesmo acontece com as empresas, que detêm níveis de cultura organizacional capazes de sustentá-las e promover desenvolvimento; ou ao contrário, enfraquecê-las. Por isso, é importante que a empresa esteja em constante análise estrutural para identificar as necessidades e ativar as mudanças, caso sejam necessárias. “Quanto mais altos os níveis de cultura organizacional, mais eficiente e sustentável é a organização”, é o que explica o Psicólogo e Especialista em Desenvolvimento Humano e Organizacional Fábio Juneo que trará informações relevantes sobre este tema.

Do Lado Doce da Vida - Quando fazemos referência à Cultura Organizacional de uma empresa quais são as fases existenciais pelas quais esta passa?
Fábio Juneo - O autor do livro Organizações Auto-Organizadas, Gilberto de Souza relaciona 9 fases existenciais de uma organização. Porém, dentro da nossa realidade, para aplicar nas empresas que trabalho e faço diagnósticos, procurei filtrar 6 fases. O importante é considerar o seguinte: quanto mais alto for o nível de desenvolvimento de uma empresa, mais viva ela se manterá no mercado e mais competitiva e sustentável ela será.

É natural que ao nascer, a empresa esteja na fase 1, que é a multitarefa, isto é, aquela fase em que todo mundo faz tudo que for preciso e não existem papéis definidos de quem faz o quê. No entanto, quando a empresa se desenvolve, naturalmente, ela vai para a fase 2, que é a funcional na qual há um pensamento de processos, e apesar de as pessoas nem sempre estarem nos lugares certos, os papéis e os departamentos começam a ser definidos.

Se mantendo, crescendo ou buscando crescer, a empresa segue para a fase 3 que é a entusiasta, a fase do vamos para cima, vamos vender mais vamos acreditar. A estratégia é crescer e muitas vezes sem metas definidas. Por isso, a empresa expande, aumenta as vendas, entretanto, não tem rentabilidade.

Com o tempo, percebendo que houve crescimento e não houve resultado ou foi abaixo do esperado, a empresa sente que precisa estruturar melhor os processos e organizar a casa. Neste ponto, passa para a fase 4, a estruturativa, quando começa a mapear e estruturar processos e procedimentos, implementar políticas e indicadores. Nesta fase, o que normalmente acontece, é a acomodação, pois a empresa sente satisfação em perceber tudo organizado.

Por uma demanda de mercado, diante de uma crise, e até mesmo por conta desta pandemia, a empresa precisa sair da estagnação e segue para a fase 5, que é a incremental. Nesta, o foco é: tudo por ser melhorado. E então, os processos são revistos para baixar os custos, melhorar a qualidade, melhorar o atendimento ao cliente, aumentar a eficiência. Por fim, a empresa atinge a fase 6 que é a colaborativa na qual há um trabalho de equipe muito bem estruturado, há propósitos e valores inspiradores, cultura de organização introduzida e alto nível de colaboração.


Do Lado Doce da Vida - Todas as empresas, necessariamente, precisam passar por todas essas fases existenciais?
Fábio Juneo - Se a empresa tem o propósito de crescer e se consolidar no mercado, naturalmente, ela precisará passar por todas essas fases para se estruturar. O que acontece muitas vezes, é que dentro de uma empresa os próprios setores podem estar em fases diferentes, alguns mais evoluídos, outros nem tanto. A reestruturação organizacional destes setores possibilitará o desenvolvimento mais efetivo.

Vale ressaltar, que o grande impeditivo para a empresa crescer é ficar por muito tempo tempo numa fase, estagnar, o que inclusive, pode ser uma escolha. Só que existem situações que forçam a empresa a se reestruturar e a revisitar as estratégias, rever os caminhos.


Do Lado Doce da Vida - Em momentos de crise é possível fazer a estruturação organizacional de uma empresa?
Fábio Juneo - Algumas empresas, diante do contexto da crise, percebem que existe a limitação de faturar, aumentar as vendas, então, estão buscando neste período cuidar de outras fases existenciais. Como por exemplo, aproveitar esse tempo disponível para organizar os processos, aprimorar os serviços e conquistar mais eficiência. As empresas estão enxergando “as torneiras” que estavam abertas, ou melhor, os desperdícios que neste momento passam a ser observados para ser reduzidos.

O momento é oportuno para otimizar os processos. Obviamente, a empresa tem que conseguir vender para conseguir se manter, e para entender o que é possível fazer, seja para crescer ou seja para arrumar a casa, é preciso ter uma visão realista.

Alguns empresários poderão lidar com riscos. Outros querem fechar o negócio. O momento da crise faz o empreender aprender com esta experiência. Alguns, inclusive, aprenderam o quanto é importante ter fluxo de caixa, organização financeira, planejamento, pois têm coisas que fogem do controle, e a saúde financeira é importante.

Neste momento, o líder consegue entender essa necessidade e o quanto estudou a este respeito, e se não estudou, passar a estudar. Se não se organizou, começa a se organizar.

Do Lado Doce da Vida - Qual é o maior desafio de uma empresa para evoluir de uma fase para outra até que possa atingir o ápice?
Fábio Juneo - A questão envolve a cultura da empresa e até mesmo crenças relacionadas à postura desta. O que acontece, de modo geral é que, existem empresas de pequeno, médio e até grande porte que são empresas familiares, nas quais há uma centralização de poder no empreendedor. E para avançar o nível de cultura organizacional a equipe precisa estar envolvida, engajada e preparada para ter mais autonomia. Por exemplo, quanto mais a empresa se aproximar da fase colaborativa, mais a equipe estará atuante, haverá uma maior democratização e a relação do empreendedor não será do poder totalmente centralizado neste.

O empreendedor precisa compreender que o negócio funciona sem ele, desde que haja pessoas preparadas para gerir o negócio, cada qual num departamento específico. O líder que fica com o pensamento de que a empresa só existe porque ele está ali, cria dificuldades para a empresa crescer e seguir para a fase colaborativa.

Do Lado Doce da Vida - A questão de liderança democrática pode trazer um pouco de receio para o empreendedor, pois parece que ele está perdendo o poder de decisão. Como driblar essa situação?
Fábio Juneo - Existem questões dentro de uma empresa nas quais a liderança democrática não se aplica, prevalecendo a autocracia. Por exemplo, as normas e regras da empresa, a qualidade de produção, estes são assuntos que não passam por discussão. Porém, os empreendedores e líderes precisam estar abertos a desenvolver as pessoas, a delegar tarefas, e inclusive, acolher as ideias dos colaboradores. O empreendedor às vezes fica tão operacional que esquece da parte estratégica, por isso, precisa praticar o desapego para deixar essa parte operacional de lado, e ser mais estratégico, para isso delegar é fundamental.

É válido esclarecer que de modo geral, para liderar não existe um tipo de liderança fixa, autocrática, democrática ou liberal. Cabe ao líder ter percepção e equilíbrio emocional para agir com flexibilidade, transitando de um para outro. Vai depender do contexto, da situação. E seja como for, precisa preparar o time para isso.

Do Lado Doce da Vida - Muitas vezes os líderes delegam tarefas e estas não saem como o esperado, trazendo à tona a frase: “quer bem feito faça você mesmo”. Como lidar com essa insatisfação?
Fábio Juneo - Racionalmente o empreendedor ou o líder compreende a necessidade de delegar tarefas, ou pelo menos deveria ter esta compreensão. Só que pode existir um lado emotivo, uma crença que o negócio só funciona com a presença dele e a máxima: “quer bem feito faça você mesmo”.

O que ocorre é que, muitas vezes, por falta de processos e até mesmo de treinamentos de pessoas, pode acontecer um problema na ausência deste empreendedor que a equipe não consegue resolver, já que nunca foi orientada para isso, ou mesmo que já foi, problemas acontecem, e aí ele reforça que se não está ali o negócio não anda.

Antes de lidar com a própria insatisfação, o empreendedor tem que assumir a responsabilidade da comunicação e compreender que na maioria das vezes a tarefa não sai como desejado porque não foi delegada de maneira apropriada, ou nem mesmo foi delegada.

Do Lado Doce da Vida - Como delegar uma tarefa para que seja executada de modo satisfatório?
Fábio Juneo - É importante diferenciar delegar de delargar. Isto é, tem líder que passa uma atividade para alguém que não tem experiência naquilo, não dá orientações suficientes, não acompanha e esquece. Isso é delargar.

Delegar exige acompanhamento, envolve dizer para as pessoas o que será feito, por que será feito, como será feito e quando será feito. Não basta só passar a tarefa, é preciso explicar a razão pela qual ela precisa ser realizada, inspirar a pessoa a fazê-la, e neste ponto o líder peca muito porque passa a tarefa sem grandes explicações deixando a linguagem vaga. Ao invés de falar que a pessoa não entende, é importante perceber as diferenças de uma pessoa para outra e o modo de compreensão mais eficaz por parte de cada uma.

Vale considerar que existem pessoas que aprendem melhor vendo, outras querem escutar e outras aprendem melhor fazendo. Delegar também é dar a oportunidade para as pessoas mostrarem o ponto de vista delas. Ao delegar, investe-se mais tempo e energia no começo para tirar dúvidas, treinar o profissional, motivá-lo, acompanhá-lo e depois é só aguardar o resultado que tem grandes chances de ser positivo.

Do Lado Doce da Vida - Como solicitar a opinião dos colaboradores sem criar neles um sentimento de frustração casos as ideias não sejam acatadas?
Fábio Juneo - Gerenciando as expectativas e valorizando a iniciativa do colaborador. Antes de abrir para opinião, é fundamental dizer para as pessoas que as ideias são bem-vindas, porém, nem sempre serão colocadas em prática por vários fatores: externos, financeiros, de mercado, de aplicabilidade. É preciso esclarecer que mesmo que não seja aproveitada, a ideia tem valor.
Existem algumas crenças limitantes da própria cultura, de que não adianta expor opinião, pois ela não será acatada. Diante desta realidade, o líder que tem a visão mais ampla do negócio, pode explicar o quanto é significativo para a empresa essa colaboração e agradecê-la. Outro ponto é, dar o devido crédito aos autores das ideias, quanto mais um líder valorizar as pessoas, o sentimento de valorização tenderá a crescer com o time de um modo geral.

Do Lado Doce da Vida - Analisando as fases existenciais de uma empresa, a busca por melhorar processos e ter uma equipe engajada faz parte do propósito E como como lidar com pessoas negativas que estão inseridas na equipe para conseguir essa evolução organizacional e humana?
Fábio Juneo - Existem algumas pessoas que de modo geral tem uma impressão negativa da empresa, do trabalho ou de algo que não tem nada a ver com a empresa, mas com ela própria. Essas pessoas têm o hábito de terceirizar as responsabilidades, e ao invés de assumir as próprias escolhas, passam para um terceiro a responsabilidade do descontentamento próprio. E claro que essa postura influencia negativamente outras pessoas. Por isso, o líder precisa estar atento a estas pessoas para lembrá-las das responsabilidades e das escolhas, e ajudá-las a crescer.

Uma forma de motivá-las é explorar as possibilidades, levá-las a aceitarem a própria escolha, e dar abertura para um diálogo franco e esclarecedor. Colocar-se à disposição para ouvir a insatisfação pode ser eficaz, e lembrá-la que de nada adianta mostrar a insatisfação para pessoas erradas, já que esta postura servirá apenas para desmotivar os colegas.

Na fase estruturativa da cultura organizacional, é hora também de avaliar os processos para a empresa não depender unicamente de uma pessoa, ou algumas pessoas que pode ser justamente a que influenciam negativamante a equipe. E caso, esta mantenha a atitude prejudicial ao ambiente de trabalho, mesmo depois de orientações e/ou treinamento, talvez seja necessário pensar em substituição.

Do Lado Doce da Vida - Ainda sobre a fase colaborativa, para que o empreendedor, líder e colaborador atinjam esse nível de engajamento e comprometimento o que é necessário?
Fábio Juneo - A postura conquistada no nível máximo da cultura organizacional, que é a colaborativa é construída fase a fase. E essa organização depende muito do posicionamento do empreendedor, dos gestores, líderes e a capacidade destes de estimular as pessoas envolvidas em todos os departamentos da empresa. Esse estímulo se oferece através de cursos de treinamento e desenvolvimento, tanto de teor técnico quanto pessoal.

O gestor, o líder o empreendedor tem que estar aberto para ouvir as pessoas, para alcançar as inovações que trarão crescimento para a empresa. E entenda-se por inovação a forma criativa de resolver o problema da empresa, uma ideia. É preciso estar aberto para escutar pessoas, e ter um time preparado. Empresas eficientes possui pessoas eficientes.

Do Lado Doce da Vida - Fase a fase, a empresa vai se organizando, incrementando os processos, buscando mais eficiência, reduzindo desperdício, cortando custos. E em relação aos valores da empresa, a missão,a visão também mudam?
Fábio Juneo - Existem diferenciais numa empresa que precisam ser mantidos. A Pastoriza, por exemplo, que está há 35 anos no mercado. Provavelmente passou por muitas transformações, e por várias fases existenciais, porém não abre mão de algumas questões, a qualidade por exemplo. Supondo que estivéssemos na fase incremental, por exemplo, que é de diminuir custos e aumentar a eficiência, estas seriam implementadas desde que não afetem a qualidade. E aí entram as pessoas que gerem o negócio, elas devem estar alinhadas com essa cultura da empresa.

Claro que a empresa precisa manter a sua essência e estar aberta para testar novas possibilidades, experimentar e seguir caminhos diferentes. Novamente, o papel dos líderes é importante, eles precisam ter maturidade para conseguir inspirar as pessoas e influenciá-las a lutar por novos propósitos e um novo posicionamento, quando necessário.

Do Lado Doce da Vida - A pandemia trouxe alguma mudança na gestão das empresas e das pessoas?
Fábio Juneo - A pandemia trouxe uma visão humana para as lideranças. Porque até então, existia uma ideia de que o líder tem resposta para tudo. Aí, quando ele enfrenta uma situação diferente, percebe que não tem respostas para tudo e pode abrir para colaboração das pessoas. E é muito gratificante quando se consegue envolver as pessoas, perceber que a responsabilidade existe em todos os setores e os problemas podem ser compartilhados. Conseguir viver bem dentro de uma empresa é crescer como pessoa e como profissional. E uma empresa humanizada tende a enfrentar os obstáculos, vencê-los, crescer e possibilitar o crescimento de todos os envolvidos.

Do Lado Doce da Vida - Para finalizar esta entrevista, gostaríamos que deixasse uma mensagem para nossos leitores muitos deles empresários, outros líderes, há também profissionais atuantes em empresas voltadas para a confeitaria, panificação, lojas de festas e food service.
Fábio Juneo - Diante das adversidades, seja no trabalho ou na vida, lembre-se que podemos sempre aprender e nos desenvolver com elas. Tanto as empresas e nós mesmos, passamos por fases, por ciclos e muitas coisas não estão em nosso controle, mas a forma como iremos interpretar as situações e agir diante delas, isso sim.